Retrato de Geraldo Edson de AndradeUMBERTO FRANÇA

"Os universos, infantil, indígena, e do inconsciente predominam na pintura de Umberto França que traz para suas telas o gestual e as cores extraordinárias da técnica da têmpera.

O artista passou dez anos fora do país em busca de aperfeiçoamento, é bom acentuar, e o local escolhido, Amsterdam, além de cultura totalmente adversa da nossa, pode proporcionar-lhe aprimoramento artístico e desenvolvimento da Orientação Pedagógica à Arte.

Como bem disse o crítico Walmir Ayala a seu respeito, “a marca inconfundível de seu instrumento, a qualidade técnica, a consciência de percurso onde se associa a coerência, a mística, colocam Umberto França, sem dúvida, no mais alto patamar da pesquisa pictórica no Brasil de hoje”. Palavras de mestre..."

Texto: Geraldo Edson de Andrade - Revista Ventura - Julho de 2004.

Retrato do Walter BoechatPintura Xamanística

Falo da pintura de Umberto França não como crítico de arte, mas como analista junguiano interessado em símbolos. Ou, antes disso, como pessoa tocada pela força de suas imagens, onde elementos indígenas arcaicos se mesclam com valores cósmicos, arquetípicos.

Estes valores, veiculados por Umberto de forma “xamanística”, intensíssima, transcendem o plano pessoal do artista, seu interesse pelas esculturas indígenas, em especial o grupo Puri, que compõe a sua ancestralidade, e chegam ao plano do inconsciente coletivo onde se manifestam as imagens arquetípicas comuns a todos os povos.

Este conjunto de trabalhos de Umberto França pode seguramente ser denominado de pintura xamanística. Neles se descobrem os dois planos fundamentais do homem em sua relação com o universo: o plano da realidade terrestre e o plano da realidade sagrada. O papel de mediação entre estes planos é exercido, na cultura arcaica, pelo xamã. O xamanismo é fundamentalmente “uma técnica de êxtase”. O xamã, guardião de mitos e da tradição tribal, viaja até espaços transcendentes para resgatar uma alma perdida e reincorporá-la ao seu paciente, curando-o, ou para profetizar. Os símbolos dessa mediação aparecem com frequência em Umberto França: uma escada, poderosa e branca, se destaca de um fundo negro e estabelece contato comm uma forma cósmica esverdeada; entre espaços estelares e constelações, uma arco aponta para o alto, em movimento de transcendência e comunicação com o mundo invisível.

Em nossa cultura, que se prede no pensamento racional dicotomizado, fruto do iluminismo, a mediação simbólica entre o profano e o sagrado é tarefa do artista, em seu contato direto com o universo simbólico arquetípico. Nessa mediação reside o papel catártico e terapêutico da arte para a cultura. Quem melhor que Umberto França para esta viagem entre os dois mundos?

Walter Boechat (Diplomado pelo Instituto C.G. Jung de Zurique), Janeiro, 1985.

Retrato de Frederico Morais“Nunca deixou de trabalhar em grandes formatos, apesar de ter feito miniaturas na temporada holandesa. Chegou em Amsterdam como pintor realista e saiu quase, como um abstrato, mas sempre trabalhando com pigmento: -Atualmente, estou no limiar entre a abstração total e a figuração absoluta, entre o ilusório e o real. A pintura corporal indígena, essa abstração do corpo, vem influenciando o meu trabalho.

O trabalho pessoal de Umberto França, isto é, sua pintura, reflete toda esta variada gama de interesses, experiências e vivências; o imaginário indígena, a espontaneidade infantil e a presença do inconsciente no ato criador, o artista como uma espécie de canal pelo qual passam aquétipos do inconsciente coletivo. Aliás, o analista junguiano Walter Boechat definiu a pintura de Umberto França como xamanística.

Umberto França entrega um variado repertório temático formal, sendo frequente a presença de símbolos cósmicos e diverso o tratamento técnico. O artista procura conciliar desenho e pintura, manchas e grafismos, largas pinceladas e respingos, esmerando-se na obtenção de matérias requintadas ou deixando à vista, nu, o próprio tecido da tela.”

Frederico Morais (Jornal O Globo)

Retrato do crítico Walmir Ayala“Apesar da convivência com a arte flamenga holandesa, da participação na Academia de Arte, da experiência como arte terapeuta e do caráter alternativo da abertura cultural holandês, Umberto França escolhe e revela seu verdadeiro caminho, ou seja, o levantamento de sinais mágicos relacionados com a religião e a natureza...

Ao caracterizar como sinais as formas emblemáticas, que transmitem a pureza dos documentos arcaicos, ao mesmo tempo o mistério sibilino de certos enigmas, o artista sonda o subterrâneo da transitoriedade humana...

Umberto não trai o sentido de marca instantânea, logotipo carimbado, adorno e impressão sobre a pele (tatuagem descartada) das formas coletadas e reunidas para uma leitura em vários estágios. Faz funcionar todo este mundo um tanto ermético, por isso mesmo aberto às interpretações, utilizando com maestria a cor, o grafismo, a composição sabiamente estruturada, a estilização geometrizada das formas naturais, provando a vocação anti-naturalista do criador genuíno.

Umberto França atua sob o fluxo desta inspiração candente que contesta toda a convenção dos valores tradicionais mais próximos, para recuar e renovar a perspectiva do destino humano, sua função social e mágica, a verdadeira expressão de sua ancestralidade, como reforço de nossa civilização exaurida.”

Walmir Ayala (Apresentação da Exposição Sinais) Setembro, 1981

Retrato de Marco Elízio de Paiva"Para uma análise destituída de pré-julgamento da obra de Umberto França, necessitamos observar outros valores fora do contexto da arte figurativa tradicional. O relacionamento com as culturas primitivas, seus símbolos, suas lendas e suas explicações do universo são tão evidentes que nos remetem às pinturas parietais, símbolos gráficos de escultura, cerâmica, cestaria e pintura corporal de culturas arcaicas. Se não deixarmos nossos condicionamentos interferirem, a priori, na busca de um significado de sua obra, podemos comungar as vivências do artista, o desgaste enorme de um ser sensível, que procurou comunicar-nos não o bonito do nosso cotidiano conhecido, mas a misteriosa essência do desconhecido, as forças liberadas de harmonia do complexo ato de pensar e criar simultaneamente, segundo os meios bem mais expressivos porque são fortes tentativas de mergulhar na estranha realidade para percepção sem limites.”

Marco Elízio de Paiva (Professor de História da Arte da Universidade Federal de Minas Gerais), Novembro de 1981

Retrato de Ferreira Gullar“A pintura de Umberto França poderia ser sintetizada em duas palavras: ação e cor. Ou seja, a ação da linha de cor que dinamiza o espaço da tela, que o enche de alegria intensa. Não é pintura de contemplação mas de participação. Não tem subjetividade, nostalgia, memória: é toda presente, está toda à mostra na superfície que o olho capta sem deixar sobras. Uma festa da qual somos levados a participar alegremente.”

(Ferreira Gullar)